Porque o crafthunting é o novo coolhunting

Actualizado: feb 4

Empreendedores de moda que são ponte entre o local e o global


Glocal é um conceito relativamente novo originado pela junção das palavras global com local. Apesar de quase opostos, o que une esses dois conceitos formulando uma única ideia?


O sociólogo inglês Roland Robertson, foi um dos primeiros a explicar o termo. Ele sugeriu que glocalização significa a simultaneidade das tendências universais e particulares que podemos encontrar em um local. Na prática, as pessoas pensariam de forma globalizada mas agiriam pensando em seu território. Embora sejam inúmeros os exemplos dessa prática quase naturalizada, na moda, elas chamam nossa atenção, pois o trabalho artesanal tem sido um respiro diante da pasteurização da imagem, das marcas e dos estilos que canais de informação de moda insistem em disseminar.


Foto para a divulgação do projeto Tenun Ikat Sikka GI - Foto: Irvan Reza


Isabel Huamán Díaz. Foto: Patrick Planter

Isabel Huamán Díaz, peruana que vive na Suíça há 20 anos, é uma empreendedora que tem em mente o conceito de glocalização. Líder de uma consultoria que conecta comunidades de artesãos com o mercado globalizado, ela procura atender as demandas de um público amplo e diversificado, promovendo as características culturais das comunidades artesãs que representa e apoia. Embora este não seja um caso isolado, pois atualmente existem diferentes programas com finalidades similares (você pode ler em nosso instagram sobre o Ethical Fashion também), Isabel tem uma atuação singular, pois se preocupa em interferir o mínimo possível na atividade dos artesãos. Seu foco é somente guiá-los e mostrar-lhes como seu trabalho é valioso e, assim, sua "interferência" se limita à área da promoção dos produtos.


Assim, o desafio que Isabel enfrenta diariamente é comunicar para o mundo os valores e os trabalhos singulares das comunidades selecionadas, usando uma linguagem adequada para o consumidor final que está espalhado pelo mundo, tem outras vivências e até mesmo valores. Por exemplo, em seu projeto para promover os Ikats na Indonésia (que vamos comentar a seguir), ela escolheu uma modelo caucasiana e um cenário de uma casa ocidental com piscina e objetos comuns propositalmente, para que os consumidores europeus se enxergassem dentro das peças tradicionais.


Empreendendo e superando desafios com novos modelos de projeto


Isabel fundou a Toqapu em 2019, com o objetivo de apoiar o patrimônio cultural de diversos povos por meio do design. O nome Toqapu, em lingua Quechua, significa montanha sagrada (Toq: montanha e Apu: sagrada), e é uma referência aos motivos têxteis de forma retangular tradicionais entre os quechuas.


Artesãs do projeto Ni - Foto: Luis Miranda

Surpreendida pela pandemia, em 2020 Isabel desenvolveu um de seus primeiros grandes projetos. Trata-se de uma coleção própria, chamada Ni, que foi criada junto com artesãs peruanas e composta por peças como caftãs, vestidos e macacões. Os tecidos das roupas são produzidos artesanalmente no Peru, na região de Lambayeque.


Com o projeto em andamento e uma pandemia mundial em fase inicial, as dificuldades de logística e locomoção tornaram o empreendimento ainda mais desafiador. Todos esses obstáculos não fizeram Isabel desistir e a solução foi a união entre a tecnologia e o artesanato. Com inúmeras vídeo chamadas, as artesãs, Isabel e a designer de moda digital Taisia Karpova, desenvolveram seus protótipos em 3D, usando o software Clo3D e uma técnica cinética de construção de vestimentas da dupla sueca, Atacac. A prototipagem em 3D na Europa evitou a preparação de peças e protótipos finais antes das vendas e, também, superou as dificuldades de transporte para análise e aprovação, uma vez que Isabel estava na Europa.


Fotos do e-commerce do projeto Ni com os protótipos em 3d.



Mais recentemente, a Toqapu envolveu-se no desenvolvimento e promoção de tecidos e artefatos produzidos por uma comunidade na Indonésia que tece Ikats, a "Tenun Ikat Sikka GI" que no idioma local significa “Tecidos Ikat feitos em Sikka”. Esse novo trabalho contou com a cooperação do governo da Indonésia com o ISIP (Indonesian-Swiss Intellectual Property Project), que se responsabilizam pelo registro os padrões tradicionais de Ikat como propriedade intelectual da comunidade de Sikka, inibindo sua cópia até mesmo na forma de estampas.


Isabel foi coautora dessa coleção junto com os artesãos, ajudando-os na fase de inspiração e organização, sem interferir demasiadamente nos produtos. “As cores foram inspiradas na paisagem local e os artesãos escolheram as combinações de cores das amostras dos primeiros produtos”, conta Isabel. Suas diretrizes ajudaram a criar um material de amostras com moodboard e as opções de cores que eles poderiam usar.


Campanha do projeto Tenun Ikat Sikka GI

Fotos: respectivamente Umarez Sungkar e Fitra Andi.


O resultado final foi uma coleção com 42 tipos de tecidos disponíveis para designers de qualquer marca que queiram utilizá-los em seus projetos. Eles podem fazer seus pedidos combinando as cores pré-selecionadas e padrões Ikat e, para facilitar as coordenações e a manipulação das opções, desenhos digitalizados são fornecidos para que esses tecidos possam ser antes simulados pelo designer digitalmente.


Com o projeto pronto, agora o trabalho da Toqapu é fazer a ponte entre designers e os artesãos, garantindo que os designers entendam o que é possível ou não fazer com a técnica artesanal. Além disso, a Toqapu procura marketplaces para vender as peças já prontas feitas pela comunidade.


“O meu objetivo não é gerar grandes vendas, mas criar valor ao que os artesãos fazem. Trazendo para eles inspiração para que continuem fazendo o que eles já fazem, fazendo-os acreditar naquilo que eles estão criando.” - Isabel Huamán Díaz.

Na opinião de Isabel, o principal desafio para conectar a indústria da moda e o trabalho artesanal é mudar a mentalidade dos profissionais que pensam que artesanato ou é uma caridade ou é apenas uma mão-de-obra. “Os artesãos têm um conhecimento muito importante que tem que ser respeitado.” Isabel prioriza a criatividade dos artesãos, deixando-os livres para criar, mas entende que é difícil para os designers que muitas vezes procuram o artesão com uma ideia fixa na cabeça. Por isso, mudar essa maneira de pensar é necessária para que a co-criação de fato aconteça, pois o equilíbrio entre o designer e o artesão é essencial.


A dica que Isabel dá para os designers e profissionais que querem trabalhar com artesãos, é ter três valores em mente: Respeito pela cultura local, reconhecimento e autoria, ou seja, dar os créditos de criação para o artesão e a valorização do trabalho de cada um por meio de um pagamento justo. Ela diz que é necessário dar um passo para trás quando o designer quer trabalhar em uma comunidade.


Em sua opinião, a pandemia acelerou um processo que já estava acontecendo sobre uma moda mais consciente. A internet e a digitalização estão fazendo com que comunidades que antes eram remotas se conectem e se tornem globalmente conhecidas e, por consequência, mais pessoas que não sabiam a origem de um padrão ou técnica, se conscientizem e passem a valorizar aquela cultura.


Para Isabel, vivemos um tempo de mudanças e, nesse período difícil,nossas emoções ficam mais afloradas e os produtos artesanais trazem esse conforto emocional que as pessoas procuram e podem ser produtos tão valorizados que serão o novo luxo.


A experiência de Isabel nos mostra que é possível ter uma relação de ganha-ganha entre a indústria da moda e o artesanato. Nessa colaboração real, artesãos possuem sua cultura celebrada com uma vida digna e salários justos, e as marcas promovem uma moda autêntica. Porém, não é tão comum que um profissional de moda desenvolva de forma inata a mentalidade de valorizar e dar crédito às culturas tradicionais. Tendo origem e vivendo em sociedades que valorizam a produção seriada, o alto consumo e a imagem coletiva, profissionais de moda normalmente são apresentados a esses desafios quando começam a conhecer a insustentabilidade do setor. As escolas de moda ainda estão iniciando a inclusão desses conteúdos em suas grades e muitas das empresas não praticam uma moda ética. A cultura dos artesãos é viva e cabe a todos nós valorizá-las e promovê-las para que justamente a moda seja um propagador de diversas identidades no mundo, expressando culturais locais de uma maneira global.


Se você quer ser uma dessas pessoas que muda o mundo e se destaca, participe conosco do do projeto Moda pela Mudança, que é mais que um curso, é uma verdadeira incursão pela mudança de mentalidade para o futuro.




Entrevista exclusiva concedida para a Fashion for Future.


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